quinta-feira, 8 de março de 2007

Dia Internacional da Mulher


não gosto de dias internacionais
ainda que hoje to dediquem Mulher,
porque venerar-te nunca é demais
e adorar-te sempre que se quiser.
onde acharíamos olhares tão doces
capazes de abrir num instante
os tremendos invernos das nossas manhãs?
que seria de nós se tu não fosses
deusa das nossas vidas,
mãe dos nossos filhos em intensos afãs,
companheira e amante
sempre presente nas horas proibidas
quando fazes da ternura
a única regra das nossas manhãs.
feiticeira meiga que mistura
feitiço e paixão com um pouco de suor,
és tu quem nos pinta os sonhos
das cores da aurora dos dias de verão.
gosto quando fazes de malvada:
finjo um ar atrapalhado
porque sou algo desorganizado.
faço de conta que não é nada
porque trazes no ser a fragilidade da lua
e a tristeza das flores, de todas as flores
que perdem para ti em beleza.
vivemos por causa tua
a cada minuto novas dores,
expressão da nossa fraqueza,
mas fonte eterna de grandes amores.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Sonho



1- Sete da manhã de um dia que amanhece límpido. Os primeiros raios de sol rompem pelas fendas de um estore de véspera mal fechado. Cabelos desgrenhados, levanta-se com os olhos cansados de sonhar.

2- Desce à cozinha e prepara o café que a há-de levar, e ao homem que a abraçou durante o sono, até ao almoço. Deixa-lhe, distante, um beijo apressado.

3-Lembra-se de um café que um grande vidro abria sobre o passeio onde indiferentes pessoas passavam apressadas e da larga cortina vermelha junto à mesa onde conversava segurando-lhe timidamente a mão com as pontas dos dedos numa troca de calor. Lembra-se de ser feliz e de como aquele encontro mágico a tornava jovem e bela de novo.

4- Um café moderno confina com o largo passeio da avenida mais movimentada da cidade. Junto à boca do metro um volumoso canteiro e junto às flores vermelhas um banco, só.

5- Um homem passa e pára. Olha, vazia, uma mesa por detrás de uma cortina vermelha semicerrada, duas chávenas e alguns guardanapos amarrotados. Senta-se no banco. Indistintas as gentes passam sem se deterem.

6- Uma mulher, os cabelos, a deixar entrever um rosto doce, bem arranjados soltos sobre os ombros, caminha apressadamente. Por alguns segundos de aproximação fixam-se os olhares naquela estranha sensação de dejá vù que ela, por feminino pudor, rejeita apressando-se.

8- - Por favor! Espere. Conheço-a e sei que me conhece! … Amanhã espero-a, aqui, neste mesmo banco!

9- Voltou-se lançando um breve olhar atrapalhado. Partiu. Quando o homem que dorme a seu lado a amou, ela sonhou, de novo, com aquelas mãos de amar que junto ao vidro se enlaçavam nas suas.

10- Enquanto as mãos se atarefavam com a desordem das torradas e do café, o “Amanhã espero-a!” ocupava-lhe a essência pelo que … o mesmo beijo apressado quando ele saiu. Durante grande parte da manhã decidiu não ceder sob pena da sua alma de mulher.

10- Nas costas do banco, por trás do canteiro vermelho de flores, a avenida agitava-se freneticamente ao ritmo do trânsito da manhã. A mesa junto à cortina recebia impassível as gentes, ao ritmo da necessidade social que estas têm de ir ao café. Quando ela chegou, já a esperança partira das mãos dele. Apenas, vazios, um banco e uma mesa que a cortina corrida ocultara.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Hora de aura


1. Uma largueza interminável de areia perde-se de vista, no mar e no pinhal. Odores de resina e maresia enchiam a brisa estival que envolvia a pele dourada de sol e de sal.
2. Um olhar de férias desatento na justa medida em que o será todo o olhar que procura fora o que a memória e a saudade aprisionam dentro. Olhar longo, entre o azul e o verde. Olhar que pára desistente na areia, a mesma que se escoa, fina e suave por entre dedos desejosos do abraço longo e macio perdido num horizonte de intimidade, entre o verde e o azul, a resina e o mar.
3. Anoiteceu uma brisa cálida naquele início de Setembro.
4. Num quarto urbano de 18 m2, uma cama morena de vida, branca de fresco e um homem que sonha. Uma janela desemboca, entreaberta, numa praia que desemboca no mar.
5. No céu resistem as estrelas de alva, do alvorecer que faz a transição do sono para a vida, do prazer para o ser, de Vénus para o Sol. É a hora de “aura” ou “au’hora”.
6. O homem abre os lençóis. À janela, o mar tece murmúrios de sal. Ao fundo, onde a praia se confunde com o mar e com o céu, ela rompe, envolta na simplicidade do branco que a envolve e a cobre num largo chapéu que solta, longos os cabelos.
7. Um olhar atento. Ela caminha e pára, frente à janela. Ele olha, liberdade e desejo. Calam as palavras que insistem em ficar. Estendem um abraço.
8. O toque fá-la fogo, bola de fogo que se eleva e doura a praia.
9. Nessa manhã, o homem, corsário branco, deixou a prancha e estendeu-se na areia dourando-se à luz quente do dia. Nem os amigos o viram, nem as ondas o trouxeram.
10. Porém, cedo, à noite no café, nenhum estranhou quando ele se despediu com um “Boa Noite! Tenho um sonho à minha espera!”

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Primavera de Paris


Dizem que havia um cego sentado na calçada em Paris, com um boné a seus pés e um pedaço de madeira que, escrito com giz branco, dizia: "Por favor, ajude-me, sou cego". Um publicitário, da área de criação, que passava em frente a ele, parou e viu umas poucas de moedas no boné. Sem pedir licença, pegou no cartaz, virou-o, pegou no giz e escreveu outro anúncio. Voltou a colocar o pedaço de madeira aos pés do cego e foi-se embora.
Pela tarde, o publicitário voltou a passar em frente ao cego que pedia esmola. Agora, o seu boné estava cheio de notas e moedas. O cego, reconhecendo as pisadas, perguntou-lhe se tinha sido ele quem reescreveu seu cartaz, sobretudo querendo saber o que tinha escrito ali. O publicitário respondeu: "Nada que não esteja de acordo com o seu anúncio, mas com outras palavras". Sorriu e continuou seu caminho. O cego nunca soube, mas seu novo cartaz dizia: "Hoje é Primavera em Paris, e eu não posso vê-la".
Mudar a estratégia quando nada nos acontece... pode trazer novas perspectivas.