quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Hora de aura


1. Uma largueza interminável de areia perde-se de vista, no mar e no pinhal. Odores de resina e maresia enchiam a brisa estival que envolvia a pele dourada de sol e de sal.
2. Um olhar de férias desatento na justa medida em que o será todo o olhar que procura fora o que a memória e a saudade aprisionam dentro. Olhar longo, entre o azul e o verde. Olhar que pára desistente na areia, a mesma que se escoa, fina e suave por entre dedos desejosos do abraço longo e macio perdido num horizonte de intimidade, entre o verde e o azul, a resina e o mar.
3. Anoiteceu uma brisa cálida naquele início de Setembro.
4. Num quarto urbano de 18 m2, uma cama morena de vida, branca de fresco e um homem que sonha. Uma janela desemboca, entreaberta, numa praia que desemboca no mar.
5. No céu resistem as estrelas de alva, do alvorecer que faz a transição do sono para a vida, do prazer para o ser, de Vénus para o Sol. É a hora de “aura” ou “au’hora”.
6. O homem abre os lençóis. À janela, o mar tece murmúrios de sal. Ao fundo, onde a praia se confunde com o mar e com o céu, ela rompe, envolta na simplicidade do branco que a envolve e a cobre num largo chapéu que solta, longos os cabelos.
7. Um olhar atento. Ela caminha e pára, frente à janela. Ele olha, liberdade e desejo. Calam as palavras que insistem em ficar. Estendem um abraço.
8. O toque fá-la fogo, bola de fogo que se eleva e doura a praia.
9. Nessa manhã, o homem, corsário branco, deixou a prancha e estendeu-se na areia dourando-se à luz quente do dia. Nem os amigos o viram, nem as ondas o trouxeram.
10. Porém, cedo, à noite no café, nenhum estranhou quando ele se despediu com um “Boa Noite! Tenho um sonho à minha espera!”

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Primavera de Paris


Dizem que havia um cego sentado na calçada em Paris, com um boné a seus pés e um pedaço de madeira que, escrito com giz branco, dizia: "Por favor, ajude-me, sou cego". Um publicitário, da área de criação, que passava em frente a ele, parou e viu umas poucas de moedas no boné. Sem pedir licença, pegou no cartaz, virou-o, pegou no giz e escreveu outro anúncio. Voltou a colocar o pedaço de madeira aos pés do cego e foi-se embora.
Pela tarde, o publicitário voltou a passar em frente ao cego que pedia esmola. Agora, o seu boné estava cheio de notas e moedas. O cego, reconhecendo as pisadas, perguntou-lhe se tinha sido ele quem reescreveu seu cartaz, sobretudo querendo saber o que tinha escrito ali. O publicitário respondeu: "Nada que não esteja de acordo com o seu anúncio, mas com outras palavras". Sorriu e continuou seu caminho. O cego nunca soube, mas seu novo cartaz dizia: "Hoje é Primavera em Paris, e eu não posso vê-la".
Mudar a estratégia quando nada nos acontece... pode trazer novas perspectivas.