2. Um olhar de férias desatento na justa medida em que o será todo o olhar que procura fora o que a memória e a saudade aprisionam dentro. Olhar longo, entre o azul e o verde. Olhar que pára desistente na areia, a mesma que se escoa, fina e suave por entre dedos desejosos do abraço longo e macio perdido num horizonte de intimidade, entre o verde e o azul, a resina e o mar.
3. Anoiteceu uma brisa cálida naquele início de Setembro.
4. Num quarto urbano de 18 m2, uma cama morena de vida, branca de fresco e um homem que sonha. Uma janela desemboca, entreaberta, numa praia que desemboca no mar.
5. No céu resistem as estrelas de alva, do alvorecer que faz a transição do sono para a vida, do prazer para o ser, de Vénus para o Sol. É a hora de “aura” ou “au’hora”.
6. O homem abre os lençóis. À janela, o mar tece murmúrios de sal. Ao fundo, onde a praia se confunde com o mar e com o céu, ela rompe, envolta na simplicidade do branco que a envolve e a cobre num largo chapéu que solta, longos os cabelos.
7. Um olhar atento. Ela caminha e pára, frente à janela. Ele olha, liberdade e desejo. Calam as palavras que insistem em ficar. Estendem um abraço.
8. O toque fá-la fogo, bola de fogo que se eleva e doura a praia.
9. Nessa manhã, o homem, corsário branco, deixou a prancha e estendeu-se na areia dourando-se à luz quente do dia. Nem os amigos o viram, nem as ondas o trouxeram.
10. Porém, cedo, à noite no café, nenhum estranhou quando ele se despediu com um “Boa Noite! Tenho um sonho à minha espera!”
