1- Sete da manhã de um dia que amanhece límpido. Os primeiros raios de sol rompem pelas fendas de um estore de véspera mal fechado. Cabelos desgrenhados, levanta-se com os olhos cansados de sonhar.
2- Desce à cozinha e prepara o café que a há-de levar, e ao homem que a abraçou durante o sono, até ao almoço. Deixa-lhe, distante, um beijo apressado.
3-Lembra-se de um café que um grande vidro abria sobre o passeio onde indiferentes pessoas passavam apressadas e da larga cortina vermelha junto à mesa onde conversava segurando-lhe timidamente a mão com as pontas dos dedos numa troca de calor. Lembra-se de ser feliz e de como aquele encontro mágico a tornava jovem e bela de novo.
4- Um café moderno confina com o largo passeio da avenida mais movimentada da cidade. Junto à boca do metro um volumoso canteiro e junto às flores vermelhas um banco, só.
5- Um homem passa e pára. Olha, vazia, uma mesa por detrás de uma cortina vermelha semicerrada, duas chávenas e alguns guardanapos amarrotados. Senta-se no banco. Indistintas as gentes passam sem se deterem.
6- Uma mulher, os cabelos, a deixar entrever um rosto doce, bem arranjados soltos sobre os ombros, caminha apressadamente. Por alguns segundos de aproximação fixam-se os olhares naquela estranha sensação de dejá vù que ela, por feminino pudor, rejeita apressando-se.
8- - Por favor! Espere. Conheço-a e sei que me conhece! … Amanhã espero-a, aqui, neste mesmo banco!
9- Voltou-se lançando um breve olhar atrapalhado. Partiu. Quando o homem que dorme a seu lado a amou, ela sonhou, de novo, com aquelas mãos de amar que junto ao vidro se enlaçavam nas suas.
10- Enquanto as mãos se atarefavam com a desordem das torradas e do café, o “Amanhã espero-a!” ocupava-lhe a essência pelo que … o mesmo beijo apressado quando ele saiu. Durante grande parte da manhã decidiu não ceder sob pena da sua alma de mulher.
10- Nas costas do banco, por trás do canteiro vermelho de flores, a avenida agitava-se freneticamente ao ritmo do trânsito da manhã. A mesa junto à cortina recebia impassível as gentes, ao ritmo da necessidade social que estas têm de ir ao café. Quando ela chegou, já a esperança partira das mãos dele. Apenas, vazios, um banco e uma mesa que a cortina corrida ocultara.
